Ritmo cotidiano na Escola Caminho do Meio

Crianças pulando corda

Nota preliminar

Esse texto faz parte do material de formação para toda a comunidade escolar da Escola Caminho do Meio (ECM). O conceito de ritmo é um das principais basas tanto na Educação Infantil quanto no Ensino Fundamental. Aplica-se no planejamento diário ao longo de todo o ano letivo.

  • Profa. Vanessa Cristina Francisco é coordenadora pedagógica da ECM.
  • © da autora.

Ritmo cotidiano

Profa. Vanessa Cristina Francisco

Fevereiro de 2020

O ritmo é o equilíbrio que permite expressar o inexpressável e que sustenta nossas emoções; é a base de todo movimento humano no espaço, incluindo a música. Desde o pulso de nossos silêncios e sono ao equilíbrio do sangue entre alcalinidade e a acidez, ou a relação complementar orto e parassimpático do sistema nervoso, estar em equilíbrio é respeitar a dinâmica rítmica universal e a mensagem do corpo consciente.

(Carlos D. Fregtman – O Tao da Música)

O ritmo está em nós: observe sua respiração, seus batimentos cardíacos, seus passos. O ritmo está no ambiente: observe o dia e a noite, o inverno e verão, o escuro e o claro. Ao pensar em ritmo, trazemos as qualidades das polaridades: abrir e fechar, subir e descer, levantar e deitar, acordar e dormir, nascer e morrer, chegar e partir, amanhecer e anoitecer… O ritmo na vida acontece em um movimento de contração e de expansão.

Para que a vida flua saudável, o ritmo se faz necessário. Veja que, se o coração desenvolve alguma patologia, como a arritmia, isso impacta a saúde; se o ar não é todo expulso do pulmão, acontece a asma. Uma noite em que não se dorme, percebemos no dia seguinte como o corpo se manifesta cansado e indisposto pela falta de descanso, pela falta de contração. Para a saúde se fortalecer é necessário um ritmo, é preciso o movimento da contração e da expansão constante, fluído, dançado.

Na Escola Caminho do Meio olhamos a “rotina”, como se costuma designar o dia a dia, com a qualidade do ritmo, portanto, nos referimos ao Ritmo Cotidiano.

O Ritmo Anual começa no verão, em uma grande expansão de acolhimento, reencontro, novidade e frescor. Em seguida começamos a nos contrair lentamente no outono, reconhecendo as qualidades e estabelecendo confiança. No final do primeiro semestre vivemos a grande contração do ano, o inverno: o fogo nos convida a aquietar e atentar para entender e descrever os processos. Um tempo depois, lentamente, começamos o movimento de expandir na primavera: cantos de pássaros borboletas e flores a colorir o ambiente que renasce, depois de viver um ciclo de plantar e colher. E finalizamos o ano, na chegada do verão novamente, que expande alegremente nas muitas possibilidades que temos de criar e começar tudo novo de novo.

No inverno a seiva das plantas se concentra nas raízes, no verão, se concentra nas copas e folhas. Na Medicina Chinesa, os acupunturistas sentem o pulso da pessoa para a anamnese. No inverno o pulso é baixo, bem lá no fundo e no verão é alto, na superfície da pele. Somos Natureza.

O imemorial ritmo se encontra na origem da própria vida, tudo se manifesta através do ritmo, a dança é ritmo e a linguagem tem ritmo para ser expressão. Ritmo é a pulsação vital, a batida do coração, o fluxo da nossa respiração. Ritmo têm as fases da Lua, as órbitas dos planetas e os movimentos estelares, com ritmo se sucedem as obras mais memoráveis de cada geração: uma roda é basicamente ritmo. Ritmo existe na água, na campina, nas montanhas, no canto das aves e no bater das asas de uma mariposa. Quando a matéria alcança sua mais ardente pulsação, se consuma o acontecimento da beleza. Ritmo é um vaivém paciente, sábio, luxurioso e criador. O menor ser ou o maior de todos, no ar, na terra ou nos mares, possui uma onda de pulsação.

(Carlos D. Fregtman – O Tao da Música)

Ao compor o ritmo semanal, podemos observar o mesmo movimento: a expansão na segunda-feira, o início da contração na terça-feira, a contração maior na quarta-feira. E na quinta-feira começa a expandir lentamente e na sexta-feira a expansão ampla.

Compomos assim o ritmo cotidiano: o início da tarde traz uma expansão, de chegada e encontro, em seguida começamos a contrair, conduzindo para a roda (e sono dos menores). Contraímos na pesquisa, nas atividades, no conhecer, na investigação e em seguida começamos a expandir com cuidado para lanchar e ir para o recreio, a maior expansão. Ao voltar do recreio e pátio, conduzimos novamente uma leve contração e finalizamos o dia em roda, encerrando a tarde, que anuncia a chegada da noite.

O ritmo da expansão e contração se fazem presentes nos projetos também: nas primeiras semanas abrimos, expandimos e nas últimas semanas contraímos, fechamos o projeto: início, meio e fim. Realizar os ciclos: para isso temos o planejamento, ferramenta importante para a educadora, que mantêm-se aberta para o inusitado, para o improviso, para os ventos e ondas que constituem o movimento vivo de ser e fazer na escola, que é a própria vida. “Afinal, as crianças não estão, num dado momento, sendo preparadas para a vida e, em outro, vivendo” (John Dewey – 1859-1952).

Observar e compreender o ritmo em si, nas crianças, nas famílias, no ambiente, na escola, na própria vida, nos oferece a oportunidade de perceber, conduzir, ou reconduzir, movimentos. Por exemplo: um grupo que está manifestando muita dificuldade de concentração nas aulas, talvez não esteja expandindo de forma saudável. A professora fica atenta no recreio, para ler os gestos, passos e saltos das crianças. Pode, então, propor brincadeiras de pular corda e elástico para favorecer o desenvolvimento de habilidades motoras básicas que estimulam sinapses e propiciam o desenvolvimento da concentração.

Tarefas de movimento requerem precisão, estabilidade, direcionalidade e equilíbrio necessitam de certo grau de concentração, o equilíbrio é fundamental para a coordenação motora. Segundo Raso (1984), um mau equilíbrio afeta a construção do esquema corporal, porque traz como consequência a perda da consciência de certas partes do corpo. Quanto mais defeituoso é o equilíbrio, mais energia se gasta, resultando em consequências psicológicas, como ansiedade e insegurança. Para que o organismo aprenda e não se sinta inseguro, ele tem primeiro de ser capaz, por meio de uma adequação energética própria, de ampliar e inibir estímulos, processar informações e agir. Sem o domínio postural, o cérebro não aprende a motricidade não se desenvolve e a atividade simbólica fica erroneamente afetada.

(Glaucio Lira, Coordenação Motora –
A importância da coordenação motora e seus rendimentos em escolares.)

O Ritmo Cotidiano é um dos princípios da Escola Caminho do Meio e é um exercício constante a ser feito por toda equipe pedagógica. Acelerar ou baixar o ritmo da orquestra requer uma regente que conheça o pulso, a melodia a harmonia e cada um dos instrumentos e músicos dessa banda que toca, dança e brinca.

Ritmo cotidiano na Escola Caminho do Meio

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